Seridó - Negros do Riacho

 

Quem é esse povo?

 

Por Marline Negreiros

 

Seridó. Século XIX. Por entre os arbustos de uma vegetação tabuleira, numa terra seca, um ex-escravo alforriado passa a viver e criar sua família. Assim começa a história dos “Negros do Riacho”. Difícil passar algum tempo em Currais Novos sem nunca ter ouvido falar nessa comunidade. O grupo descendente de escravos vive nas terras do Riacho Bonsucesso, situado a 9 km da cidade.

Quem é este povo? Marcado por uma riqueza histórica e cultural, a comunidade resistiu à precárias condições de vida e permanece na luta obstinada pela sobrevivência. Hoje é memória viva, um dado histórico do povo negro na região.

Riacho. Pedaço de chão que produtivo ou não é o lugar onde os negros podem ser eles mesmos, livres em sua identidade social. A porteira é o ponto inicial da comunidade. Chegando lá, sempre há um menino à espera. Vamos entrar? Em contato com as primeiras casas, sempre aparecem as crianças – prova de vida renascendo nas terras do Riacho. Didi, Dodô, Clarinha. Em cada canto, a meninada do Riacho se solta. Pés descalços. Liberdade. Com um sorriso faceiro ou um jeitinho desconfiado, lá estão eles, meninas e meninos, retratos das gerações. Com o passar do tempo, a mistura das raças. De tão iguais na vida, apesar de diferentes na cor – uns quase loiros, outros tão negros, até parecem um só, unidos pela mesma raiz cultural. Na simplicidade infantil, o que esperam? Talvez aguardem uma mudança, quem sabe a oportunidade de ir à escola. Enquanto isso, dividem o mesmo espaço e até quem sabe os mesmos sonhos.

“Mainha tem uma roupinha pra neguinha?” Essa é a frase freqüentemente dita pelas negras do Riacho. Para driblar os tempos de miséria e sobreviver, a comunidade pede ajuda à população de Currais Novos. Essa relação é tão antiga que já foram criados muitos laços de amizade com as mães da cidade. Mãos negras. Mãos fortes. Pés sobre o barro. Matéria e obra-prima que se fundem, se misturam numa intimidade harmoniosa. Este barro que amanhã será pote – arte e sobrevivência. Potes de barro, característica mais marcante de sobrevivência da comunidade. Herança dos negros descendentes de escravos, a técnica de produzir a cerâmica é um aprendizado passado de pai para filho nesta terra. No dia da feira, por entre os potes de barro, vendendo carvão, lá estão eles pelas calçadas. Potes de Pretinha, potes de Tereza. Como dizia o poeta Celestino Alves – tem poesia nas louceiras do Riacho.

Riacho de Mãe Tereza, líder do povo. Guerreira conhecida, pois preservava a história da sua gente e em sua simplicidade demonstrava fortaleza e sabedoria. Tereza Sofredeira, era assim que a mãe da comunidade do Riacho se identificava. E agora, os seus descendentes procuram continuar a missão de preservar a vida na comunidade Negros do Riacho.

Negros do Riacho, gente de olhar firme e raízes fortes. Um povo resistente enquanto grupo social. Tradição repassada pelas gerações e que luta para se manter mesmo em um universo de discriminação. Cultura que não pode ser vista como uma vitrine. Os negros não são objetos de exposição. E como enfatizou o antropólogo Luiz Assunção – a força da comunidade está presente em um passado histórico, eles são exemplo-vivo da cultura negra, descendentes de um escravo, comprovação da história.

Publicado no DN Seridó, Diário de Natal/O Poti, em 17 de junho de 2007.